Júlio Bressane: Nasceu e foi ao Cinema

Alessandra Negrini, em “Cleópatra”

Homenageado este ano com uma retrospectiva que é, até à data, a mais completa da sua obra, Júlio Bressane é um dos nomes mais sonantes do Cinema Marginal brasileiro, movimento que se distanciou de um conhecido Cinema Novo (com representantes como Glauber Rocha e Nelson Pereira) que procurava retratar com maior exactidão a realidade do país, também mediante uma forte intervenção política, num modus vivendi entre a liberdade criativa e a inserção numa indústria cinematográfica. O cinema “udigrudi” (o de Bressane e outros), tal como era chamado pelos adversários, dada a influência do cinema underground norte-americano, tinha pouca reverência pela cerimónia e pautava-se por regras mutáveis, pertencentes a um universo próprio que habita os filmes e, na desilusão de expectativas e através de uma certa agressividade estética, procura libertar o espectador dos lugares-comuns.

Bressane nasceu no Rio de Janeiro, em 1946, e o seu primeiro trabalho em cinema foi como assistente de realização de Walter Lima Jr. em Menino de Engenho (1965). Lima Barreto – Trajectória e Bethania Bem de Perto – A Propósito de um Show foram as primeiras curtas metragens que realizou, em 1966. Seguiu-se a primeira longa metragem, Cara a Cara, em 1967. Em 1970 concluiu os filmes A Família do Barulho (filme a exibir na retrospectiva), Barão Olavo, o Horrível e Cuidado, Madame.

Foi precisamente a partir de 1968 que o movimento marginal, de marcado cariz experimental, se fez sentir, com manifestações nas várias artes visuais. Entre o grupo de jovens artistas estava Bressane e Rogério Sganzerla, com quem criou a produtora Belair, em 1970. Logo no primeiro ano de existência da produtora, realizou O Anjo Nasceu e Matou a Família e Foi ao Cinema, verdadeiros clássicos do Cinema Marginal brasileiro. O primeiro foi filmado em sete dias e o segundo em doze, como recomendava a filosofia da produtora – sempre com baixos orçamentos, filmar o mais possível. Nisso o Cinema Marginal e o Cinema Novo estavam de acordo: ambos privilegiavam o cinema de autor e trabalhavam com meios reduzidos.

Ainda em 1970, com a pressão da ditadura militar, Bressane exilou-se em Londres, onde realizou Memórias de um Estrangulador de Loiras. Em 1972 regressou ao Brasil e esta foi a década mais prolífica do seu trabalho, que nunca perdeu o tom experimental. O cinema de Bressane tem estreita relação com a literatura e com a música, salientado temas preponderantes como o da presença do barroco na América Latina, a comédia popular ou o Manifesto Antropófago de Oswald de Andrade.

Filmes para ver e ouvir, no IndieLisboa’11

Em O Monstro Caraíba – Nova História Antiga do Brasil (1975), o realizador oferece-nos uma nova panorâmica da proto-história do Brasil, um esqueleto original da América que combina os vestígios do passado com um novo olhar, uma viagem individual a uma História reinventada. Agonia (1978) conta a história de um amor improvável. Em O Gigante da América (1978), uma alma indígena viaja pelo Inferno, Purgatório e Paraíso, deparando-se com personagens icónicas do continente americano e respectivos discursos. Em Cinema Inocente (1979), rodado em 16mm, durante três dias, estabelece-se o diálogo com o cinema erótico, através de uma conversa com o editor Leovigildo Cordeiro. Sermões – A História de Antônio Vieira (1989) reconstrói a vida do Padre António Vieira, orador e missionário que defendeu os direitos dos povos indígenas e o fim da escravidão, tendo sido castigado pelo Tribunal da Santa Inquisição em Portugal.

Bressane filma em Quem Seria o Feliz Conviva de Isadora Duncan? (1990) o encontro de um dos principais nomes do modernismo literário brasileiro, o escritor Oswald de Andrade, na altura com 18 anos, com a bailarina americana Isadora Duncan. O Mandarim (1995) recapitula a história da música popular brasileira da 1ª metade do século XX, na voz doce de Mário Reis. Miramar (1997) funciona como um filme semi-autobiográfico e conta a história de um jovem cineasta, que se debate entre possíveis decisões e influências. São Jerônimo (1999) também vai ser obrigado a escolher entre o seu amor pela literatura e a missão de traduzir os clássicos, leia-se a Vulgata, que viria a tornar-se o texto bíblico oficial da Igreja Católica Romana.

 Os filmes de Bressane têm sido premiados em festivais um pouco por todo o mundo. Entre os mais recentes estão Dias de Nietzsche em Turim, a propósito do período que o filósofo alemão viveu na cidade, filme premiado no Festival de Veneza em 2001. Filme de Amor venceu os prémios de melhor filme, melhor fotografia (de Walter Carvalho, que assina também Cleópatra e A Erva do Rato) e melhor banda sonora (Guilherme Vaz), no 36º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Cleópatra recebeu também, em 2007, seis prémios no Festival de Brasília, incluindo o de melhor filme do júri oficial. A apresentação do filme foi polémica, no mínimo, com reacções muito diferentes, que surpreenderam o cineasta pela positiva. Uma representação da representação, esta é uma Cleópatra diferente da que estamos habituados a ver, uma reinvenção lírica do mito. A Erva do Rato, de 2008, tem como inspiração os contos “A Causa Secreta” e “Um Esqueleto” de Machado de Assis e fala sobre a relação do homem com a morte, o que fica para fazer enquanto se sobrevive ao desaparecimento dos que nos são próximos e a coexistência com os animais. O filme esteve inserido na mostra Orizzonti, como parte da programação oficial do Festival de Veneza, em 2008.

Júlio Bressane vai estar em Lisboa para  acompanhar a restrospectiva e conversar com o público sobre os seus filmes. Alessandra Negrini, actriz nos seus dois últimos filmes, junta-se também ao realizador.

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1 pensamento em “Júlio Bressane: Nasceu e foi ao Cinema

  1. Rita Pedro diz:

    Mais uma ediÇão carregadinha de óptimas propostas! O dificil vai mesmo escolher e conseguir ir a todas.

    =O)

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