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Musicbox Clubdocs II: Entrevista a Paulo Prazeres

Os Musicbox Clubdocs regressam ao IndieLisboa’11, com nova série de documentários sobre bandas portuguesas (Dead Combo, Linda Martini, Dj Ride, Diabo na Cruz e Pop Dell’Arte), da autoria de Paulo Prazeres. Leiam aqui a entrevista.

"Musicbox Clubdocs: Pop Dell'Arte"

Esta é a segunda volta dos Musicbox Club Docs no IndieLisboa. Qual é o balanço que fazes da experiência do ano passado e quais as expectativas para este, em continuidade?

A participação no Indie foi muito interessante, porque falando de conteúdos musicais, não é habitual vermos o nosso trabalho projectado numa sala de cinema. Só vimos esses trabalhos exibidos em TV ou Web normalmente. O facto de ter sido exibido no Cinema São Jorge foi especial, porque foi uma sala marcante enquanto crescia em Lisboa. Ter feedback imediato à saída de uma sala também é uma experiência que nos faz crescer. A oportunidade de discutir o próprio filme faz-nos perceber, na hora, o que podemos fazer melhor.

Há algum elemento novo ou alteração nesta proposta?

Sendo uma série, tentámos manter o espírito dos filmes anteriores. As principais alterações foram “geográficas”, porque Lisboa é ainda mais explorada como personagem! Saímos do Cais do Sodré para viajar pela cidade e arredores. Na 3a série, seria interessante expandir ainda mais as fronteiras… Tecnicamente também fizemos algumas alterações, tanto na captação como na pós-produção.

Como é o processo de escolha dos artistas a retratar? E como é a tua relação com eles durante as filmagens?

Estes filmes são feitos por uma equipa onde existem músicos, músicos “frustrados” e admiradores de música. Quer dizer que na altura das sugestões, ficamos logo com umas dezenas de bandas para convidar. A seguir, discutimos o potencial de temas a abordar em termos de música, história pessoal e visão do mundo de cada artista. Discutimos sobre o momento que a banda está a viver e sobre a importância de registar esse momento! No que toca à relação com os músicos, depende sempre de quem são. Alguns já conhecemos e o facto de já termos uma relação de amizade e/ou trabalho, faz com que a intimidade seja maior. As duas situações trazem resultados diferentes e igualmente interessantes.

Regra geral, quanto tempo demoras a concluir cada um dos documentários? Há algum prazo que te imponhas de forma a não quebrar o ritmo? Ou é uma coisa mais livre?

Temos uma primeira fase de 12 dias em que captamos todo o material. A partir do momento em que temos todos os concertos e entrevistas filmados, dedicamos um período de 3 a 4 meses de montagem, para o total de 5 horas da série. Neste período existe uma fase inicial, onde impomos um maior ritmo,  para que na fase final possamos dar mais atenção ao detalhe e aos acabamentos. Significa que a fase final é mais livre e experimental porque chegamos a voltar atrás para testar uma nova ideia ou solução para o filme.

“Musicbox Clubdocs: Dead Combo”

Entendes estes retratos como pequenas partes de um panorama musical de tendências e potencialidades? O projecto foi pensado dessa forma desde início?

O Club Docs foi pensado pelo Gonçalo Riscado, o António Forte e eu como um projecto a longo prazo e sempre numa perspectiva histórica. Estamos a registar anualmente a música, as esperanças, os anseios e as opiniões de artistas, que marcam uma época altamente prolífera de talento artístico no País. Mais tarde vamos poder observar e analisar essas tendências e potencialidades, nos sons e nas palavras dos próprios.

Qual é, para ti, o segredo para se filmar bem um concerto, para conseguir captar a energia de uma banda a tocar ao vivo? Em alguns casos, deve ser uma coisa difícil de fazer. Relembramos a banda Terrakota, que foi um dos documentários do ano passado, e tem uma energia única em concerto…

Penso que não há segredos, apenas abordagens possíveis. No meu caso sou da opinião que um concerto é um acontecimento único, em que tudo pode e deve acontecer. Um músico em palco é dos poucos performers que pode manifestar livremente aquilo que sente, enquanto executa o trabalho que mais satisfação lhe dá na vida. Um actor tem que manter a personagem, um ginasta tem que manter uma coreografia, um homem-estátua tem que… fazer de estátua. A maior parte dos músicos são imprevisíveis e estão ali a sentir e a expressar-se a cada segundo. Quem os filma deve fazer o mesmo, respeitar e estar atento a tudo. Deve contar a história do que está a acontecer à sua volta, com o seu ponto de vista. Existem mais pessoas a filmar e devemos pensar num todo – “o que é que eu consigo apanhar deste ângulo que mais ninguém consegue?!” Este ano decidimos não fazer pré-mistura ao vivo. O que quer dizer que foi muito mais livre. Definimos posições e estilo e fomos ao sabor da música. Mais arriscado para a montagem, mas também mais livre e imprevisível. Gosto dos dois processos.

“Musicbox Clubdocs: Linda Martini”

Qual é a tua opinião sobre a música que se faz em Portugal e o seu lugar a nível nacional e internacional?
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Vivemos um momento muito importante nas nossas Artes. Costumava dizer-se que Portugal estava sempre atrasado em anos… Já não é verdade! Já estamos a ditar as nossas próprias tendências. Na música também é assim. A nível nacional há uma espécie de movimento “sem vergonha de ser português” e há bandas a cantar na própria lingua e influenciadas por sonoridades portuguesas também. Começa a haver novamente uma identidade em vez de versões melhores ou piores do que se faz nos EUA ou no resto da Europa. Internacionalmente continuamos a exportar o mesmo. A música nacional raramente salta a barreira. Há casos como Moonspell, Legendary Tigerman, até mesmo os “nossos” Terrakota e Dead Combo, entre outros, que vão somando seguidores pelo mundo. O Fado no entanto continua a ser a canção nacional e o género musical mais representado fora daqui. Tenho a sensação que ainda vou assistir em Portugal a uma “cena”. Uma “cena” como houve em Seattle, Manchester, Bristol e outras cidades. Uma “cena” que tenha expressão internacional. Provavelmente nem será na capital. Mas isto são só teorias…

Como realizador, gostas de te reinventar e de embarcar em projectos diferentes?

Sim, é verdade. Julgo que será comum à maior parte dos realizadores. Já fiz um pouco de tudo. Neste momento estou a concentrar-me mais na ficção e no documentário. O Cinema foi sempre a minha paixão primordial, apesar de ter dedicado muito tempo ao universo da música. Agora que dizem que há uma crise, parece ser a altura certa para me dedicar ao que sempre quis fazer: filmes megalómanos!

"Musicbox Clubdocs: Dj Ride"

A música parece ser uma influência forte. É uma área que também dominas? Tocas ou já tocaste alguma vez numa banda?

Dominar não é mesmo a palavra! Cresci à volta de músicos, em especial do lado da família Alentejana. Sabes como é… passa-se a vida a cantar por aqueles lados. O meu pai ainda canta e toca profissionalmente na Casa Típica Parreirinha de Alfama. Chama-se Luís Tomar e nunca largou as cantigas. Depois claro, enquanto estava a crescer, tive umas bandas onde tocava guitarra e mandava umas bocas. Volta e meia ainda me junto com amigos, inventámos projectos com nomes giros e duas jam sessions. Depois, ficam no congelador… Pode ser que um dia se use o micro-ondas. Em 2005 ainda participei num disco de homenagem ao Scott Walker com os amigos BCN (aka Cindy Kat na encarnação seguinte), numa versão do tema “Jackie”. Foi o primeiro e único registo em disco na minha actividade musical. Nem chegou a 15′ de fama porque o tema só tem 4′ …

Fala-nos sobre a tua produtora, a DROID I.D.: quando começou, quais os projectos que têm desenvolvido…

Existe desde 1999 (com o nome LAB i.d.) e desde 2002 como Droid-i.d. É um colectivo artistico com ligações ao Cinema, TV, Música, VJamming, Web… Trabalhamos com ideias e imagens em todos os formatos e em todas as frentes. A face mais visível do nosso trabalho está associada à música, já que estivemos durante anos envolvidos na criação de  ‘clips’ (para artistas como os Oquestrada, Terrakota, Rodrigo Leão, Madredeus, Blasted Mechanism, Toranja, Gomo, entre outros) assim como filmagens de concertos e live acts de VJ’ing em Clubs e Festivais. Há um ano atrás, criámos a empresa de produção- Galactifiction, com o objetivo de produzirmos filmes nossos e de outros, para o território nacional e internacional. Fizemos a ‘bastante’ curta-metragem Frunc, presente no Festival de Cinema de Terror MotelX em 2009 e vamos estrear brevemente a não tão curta Homemade. Ambas tiveram origem no Polvo. Em projecto actualmente estão mais filmes e séries de ficção para TV/Web.

Fala-nos também sobre o POLVO, para os que ainda não conhecem. Costumam ter encontros para falar sobre cinema e abordar projectos ainda em construção. Como funciona?

O Polvo Criativo é uma rede informal de profissionais e amadores de cinema, vindos de todas as áreas e da qual faço parte, juntamente com algumas centenas de tentáculos. Nasceu em 2008, numa sala de atelier no Camões, passou pelo Purex e desceu até ao MusicBox. Nestes locais, várias pessoas foram ajudando a dar forma ao Polvo, em sessões privadas, com convites de boca em boca feitos por quem vai uma vez e leva amigos na próxima. Nestas sessões vêem-se e discutem-se filmes com realizadores convidados, mostram-se portfolios apresentados pelos próprios artistas, previews de filmes por estrear; fazem-se pitchs/propostas para filmes com o objectivo de atrair uma equipa técnica e artística, interessada em participar com o seu trabalho, investimento ou meios de produção. Exploram-se ainda formas de divulgação e promoção dos filmes, na forma de iniciativas dos próprios “tentáculos”, como foi o caso do movimento Shortcutz, criado pelo Rui de Brito e pelo Rogério Ribeiro no início de 2010, e que já se espalhou por várias cidades do mundo. Acima de tudo, no Polvo debatem-se ideias, encontram-se pessoas e tentam concretizar-se projectos. Os encontros acontecem uma segunda-feira por mês, com programação surpresa e data incerta.

Estão previstos mais Musicbox Club Docs? (Se sim) Já sabes quais são as próximas bandas?

A nossa vontade e esforço será sempre nesse sentido. Para filmar todas as bandas portuguesas que gostaríamos, seriam necessárias mais séries do que anos de vida. Ainda ficaram muitas bandas por convidar das listas anteriores e vai ser difícil escolher os próximos convidados. Têm alguma sugestão?

"Musicbox Clubdocs: Diabo na Cruz"

por Ágata Carvalho de Pinho

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IndieMusic: Passado e presente confundem-se ao som do que na música é intemporal

A secção do IndieMusic deste ano traz-nos The Doors, Leonard Cohen e Ricardo Villalobos, entre outros. A música portuguesa e lusófona também ocupa um lugar de destaque, com a exibição de uma trilogia da autoria do realizador Jorge António, bem como de um conjunto de documentários produzidos pela Music Box em torno de alguns dos trabalhos mais interessantes desenvolvidos no contexto da música portuguesa actual.

When You’re Strange, de Tom DiCillo, tem estreia marcada nos Estados Unidos no mesmo mês em que será apresentado em ante-estreia nacional no IndieLisboa. Com narração de Johnny Depp, o documentário mostra imagens raras dos The Doors, desde o momento em que Ray Manzarek e Jim Morrison se conheceram até ao desenlace que culminou na morte, para muitos misteriosa, do vocalista.

Já um habitué nos retratos em filme-concerto, Murray Lerner assina Leonard Cohen: Live at the Isle of Wight 1970, a mítica actuação de Leonard Cohen na 3ª edição do festival britânico, que só viria a ser revisitado em 2002. O cantor, compositor, romancista e poeta canadiano, na altura com 35 anos, incendiou o palco – também em sentido literal – e hipnotizou a multidão, contagiado pela performance de Hendrix nesse mesmo ano, cerca de três semanas antes da sua morte.

Em Villalobos, o realizador alemão Romuald Karmakar apresenta-nos, através de algumas conversas e actuações que dão testemunho da sua importância no panorama da musica electrónica, o DJ chileno Ricardo Villalobos. O festival de música alternativa do Reino Unido All Tomorrow’s Parties, cuja particularidade reside no facto de atribuir todos os anos a escolha dos nomes em cartaz a uma banda, serve de tema ao filme homónimo, concebido por Jonathan Caouette (Tarnation). Qual caleidoscópio, o filme reúne imagens desde o Super8 aos telemóveis, captadas pelo próprio público no festival. Nele actuam bandas como Sonic Youth, Animal Collective e Belle & Sebastian.

We Don’t Care About Music Anyway, de  Gaspard Kuentz e Cédric Dupire, fala-nos da filosofia e do método de trabalho de oito músicos japoneses, onde se incluem Otomo Yoshihide e Sakamoto Hiromichi, principais representantes de um universo «avant-guarde» que nasce no seio de Tóquio.

O IndieLisboa apresenta ainda O Lendário Tio Liceu e os Ngola Ritmos, terceira parte de uma trilogia, que se vê completa com a exibição também de Angola – Histórias da Música Popular (2005), a primeira parte, e de Kuduro, Fogo no Museke (2008) – a segunda parte, já exibida na edição do festival desse ano. O realizador Jorge António aborda a questão da identidade angolana, na medida em que esta se constitui em estreita relação com o Kuduro enquanto fenómeno musical e movimento cultural dinâmico, um espelho da vida no musseque e da que para além dele se sonha.

A série Music Box Club Docs agrupa cinco documentários produzidos pela Music Box, com nomes como J. P. Simões, Micro Audio Waves, Dealema, X-Wife e Terrakota. Às actuações dos músicos somam-se ainda entrevistas conduzidas pelo crítico Mário Lopes.

Imagem: Nick Zinner dos Yeah Yeah Yeahs no filme All Tomorrow’s Parties

Cantar uma liberdade maior, mas de aço

«Johnny Cash at Folsom Prison», de Bestor Cram

Esta é uma história cuja origem remonta há mais de cinco décadas: Johnny Cash assiste a Inside The Walls of Folsom Prison, um filme de 1951, enquanto serve na força aérea. O filme inspira-o a compor Folsom Prison Blues. Lançada em Dezembro de 1955, a canção é um sucesso e, em 1966, Cash vai tocá-la à prisão de Folsom. Este documentário é sobre a segunda passagem do cantor por aquela prisão, em Janeiro de 1968. O ano era de luta, por uma sociedade mais justa. E se às vezes este conceito pode imiscuir-se com a ideia de liberdade, Cash apostava na melhoria de condições para aqueles que estavam presos. Bestor Cram põe à frente da câmara dois antigos condenados que estiveram presentes naquele espectáculo para uma comovente revisitação do momento da gravação de um dos mais míticos álbuns ao vivo do século passado.

Johnny Cash at Folsom Prison, de Bestor Cram (EUA, 2008)

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