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Festivais e co-produções são vitais à internacionalização do cinema português

A internacionalização do cinema português é uma realidade que cresce e que serviu de mote para mais uma sessão das Lisbon Talks, ontem, de novo na sala 2 do Cinema São Jorge. Se a conversa se foi desviando a espaços para temas como a co-produção e da resultante facilidade de distribuição dos filmes nos circuitos de outros países (mesmo fora dos países de co-produção – é um dado estatístico do Observatório Europeu do Audiovisual), pareceu consensual que os festivais assumem um papel fundamental.

Há o óbvio: os filmes são vistos nos festivais por uma massa heterogénea de gente, que é a forma mais directa de divulgação das obras. Mas há também as consequências: nas plateias estão habitualmente compradores, distribuidores, jornalistas de todo o mundo que, gostando dos filmes, são mais do que capazes de fazer sabê-lo aos seus conterrâneos. Isto é internacionalização e festivais como o IndieLisboa (seis edições) ou o Curtas Vila do Conde (a preparar a 17ª) são centros de disseminação do cinema português, tanto para dentro como para fora do país.

Luís Urbano, produtor de O Som e a Fúria, tem disso boa experiência: Aquele Querido Mês de Agosto, de Miguel Gomes, tem colhido prémios atrás de prémios em festivais (14, ao todo), primeiro em Portugal e depois no estrangeiro. Mas o nome do realizador começou a ser falado por terras alheias muito antes deste filme, logo na estreia, com A Cara que Mereces (2004), mal recebido pela crítica portuguesa e que saltou a fronteira para França com o parecer favorável dos Cahiers du Cinéma e, depois, da Les Inkoruptibles.

Na mesa de ontem estavam três produtores que marcam presença na próxima edição de Cannes, em diferentes secções: além de Luís Urbano, na Quinzaine des Réalisateurs com Canção de Amor e Saúde, de João Nicolau; Maria João Mayer (Filmes do Tejo), com Arena de João Salaviza, em competição; e Maria João Sigalho (Rosa Filmes), com Morrer como um Homem de João Pedro Rodrigues, na secção Un Certain Regard. Nuno Fonseca, representante do Instituto do Cinema e do Audiovisual presente na mesa, não deixou de congratular e sublinhar que, afinal, a selecção de projectos com apoios públicos não será tão obscuro e aleatório como é comum dizer-se.

O ICA tem, lembrou Fonseca e com números para os últimos anos, pensado esta problemática da internacionalização do cinema português e da importância dos festivais, em especial os de renome internacional, na carreira dos filmes. Há uma linha de apoio público dedicada a facilitar esse processo, essas viagens, permitindo que as obras tenham estreias mundiais nas principais praças do cinema. Quem se ressente, como frisou Maria João Sigalho, são os festivais portugueses. Dir-se-ia, popularmente, que a situação é um pau de dois bicos. O que coloca o negócio do cinema ao nível de tudo o resto mundo, com prós e contras.

Fotos de Paula Paz

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«Não se ama aquilo que não se conhece»

Vamos imaginar uma daquelas turmas difíceis nas escolas e vamos dar-lhe um número – 14 conselhos disciplinares. Claro que sabemos da panóplia de reacções possíveis dos professores. Rosário Beja Filipe teve uma (a situação era real): pô-los a fazer cinema e, em menos de nada, o filme sobre poluição deu a volta às crianças, que começaram a melhorar comportamento e notas.

O exemplo foi apresentado ontem pela própria nas LisbonTalks, que voltaram ao São Jorge, onde permanecem até sábado (sempre às 17h30). Falava-se da «Utilização do cinema enquanto instrumento pedagógico em sala de aula» e Possidónio Cachapa, coordenador do IndieJúnior e moderador do debate, contava do caminho que o festival, através daquela secção, ajudou a percorrer nas escolas, quer nestes 11 dias de exibições, quer através de um kit pedagógico de cinco DVD que tem sido bem aceite por professores e alunos.

O IndieLisboa aproxima-se do que já se desenvolve há anos em Clermont-Ferrand. O responsável pelo programa educativo do festival francês, Sébastien Duclocher, ofereceu um modus operandi: tudo o que é material bruto dos filmes chega às escolas com um mês de antecedência, permitindo um trabalho de fantasia e montagem de inúmeras estórias na sala de aula, e um forte debate entre alunos e realizadores depois da visualização das versões oficiais. As crianças entram pelo Cinema adentro.

«Não se ama aquilo que não se conhece», resumiu Graça Lobo, coordenadora do programa Juventude Cinema Escola da Direcção Regional de Educação do Algarve. É preciso formar o público, não só utilizando o cinema para introduzir temáticas relevantes ao programa, mas também para educar a arte pela arte.

«Há sempre pessoas nas escolas que são, de uma forma ou de outra, cinéfilas», continua. Potenciar esse gosto e consequente disponibilidade tem sido uma das razões do êxito do programa, que já conseguiu colocar o cinema como disciplina opcional em seis escolas do Algarve.

A formação de professores é fundamental neste processo. Tal como os que são próximos ao alemão Lucas – Festival Internacional de Cinema para Crianças, «uns estão preparados e informados, outros não», como sublinhou Petra Kappler, mas ninguém fica de fora. A resposta está na «aproximação aos temas e aos professores».

Fotos de Paula Paz

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«Portugal não tem mercado para alimentar o cinema português»

Se nos perguntam à partida se há espaço para os novos realizadores portugueses e António Pinto Ribeiro nos responde que «vivemos um momento invulgarmente rico na cinematografia em Portugal», podemos cometer o erro de pensar que o assunto está resolvido. Mas não está. Até porque «continua a ser muito difícil passar os filmes fora dos festivais», reiterou ontem João Rosas na segunda mesa das LisbonTalks, no Cinema São Jorge.

«Há um potencial de distribuição que não está a ser explorada pelos programadores.» Pinto Ribeiro, ele próprio programador com responsabilidades na Gulbenkian, refere-se à rede de cineteatros que proliferou nos últimos anos. É necessário criar uma relação com as pessoas – «há bons cineastas em Portugal», embora faça «falta outro envolvimento com o mundo».

O financiamento à produção acabou por ser, no entanto, o tema central do debate. João Figueiras, realizador e produtor, acredita que «é preciso repensar a política do ministério da Cultura, saber se pretende apoiar primeiras obras». As regras, como estão agora, não são claras – assumem a curta-metragem como uma forma de iniciação e não como um género, por exemplo.

Gabriel Abrantes, muito influenciado pelo Do It Yourself e a cultura punk que encontrou em Nova Iorque, é da opinião que se deve procurar novas formas de financiamento. Realizador, mas também artista plástico e músico, Abrantes considera que «aqui [em Portugal] somos muito mimados pelo ICA». Mas O Padrinho não pode ser feito com pouco dinheiro e ajuda de amigos e por cá também se querem fazer filmes desses, filmes de todos os géneros, acabaram por concordar todos os presentes.

A conversa já ia na plateia. Os artistas ligados ao cinema têm o direito de aspirar a viver do seu trabalho, como em qualquer outra profissão – «a profissionalização é uma discussão interessante», tenta João Matos. As contas para pagar todos os meses saltam para a mesa e sublinham a importância do debate. Atiram-se os exemplos do Brasil e das suas medidas de incentivo ao mecenato, da Argentina e dos acordos com as salas comerciais para a divulgação do cinema nacional.

«Portugal não tem mercado nem circuito suficientes para alimentar o cinema português», contabiliza Pinto Ribeiro. «Faltam distribuidoras como parcerias internacionais» (um exemplo: o Curtas Vila do Conde). E é preciso apostar mais na formação, tanto de profissionais do cinema como de público – mas «dêem às pessoas cinco anos para formarem o seu público, tenham paciência» (outro exemplo: o IndieLisboa). «O público não paga os filmes – prevê Pinto Ribeiro – mas, se cresce, cria uma pressão política».

Depois de tudo isto, é preciso debater os filmes propriamente ditos, perder o medo de partilhar uma desilusão. Neste aspecto, mais crítico do que nos rodeia, «há um vácuo», expõe Abrantes. Pinto Ribeiro: «Posso não gostar de um filme e isto não afecta o realizador ou os actores». É nos tempos e espaços de debate frontal que se tem feito a história das gerações mais preponderantes do cinema. Caso contrário, é sempre a fantasia a trabalhar sobre a fantasia.

Fotos de Paula Paz

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Herzog é um «caçador de estórias»

Werner Herzog não filma lunáticos. É uma negativa, sim: Aguirre e Fitzcarraldo não são lunáticos. É esta a posição de Lucki Stipetic que esteve na segunda-feira na abertura das LisbonTalks, «à volta de Werner Herzog». O produtor trabalha com o Herói Independente há 35 anos e deve ter uma ou outra pista sobre o assunto, mesmo que espantando a plateia da segunda sala do Cinema São Jorge.

Podemos ver as coisas de outra forma, como Grazia Paganelli: Herzog procura a verdade através destas personagens aparentemente insanas, é «uma ferramenta para perceber a realidade, ou inventá-la». Há uma linha orientadora em todo o trabalho do alemão, nisso estiveram todos de acordo — Paganelli, Stipetic e Luís Miguel Oliveira, crítico de cinema e programador da Cinemateca Portuguesa, que estava a moderar o debate. Tem uma visão clara do que deve ser o seu cinema e, embora algumas cedências conjunturais, mantém-se fiel a si mesmo desde o primeiro filme.

Herzog filma desde os 19 anos. Tem agora 65. Teve altos e baixos no que respeita à aceitação do público, mas «chegou o tempo em que o seu trabalho é apreciado como ele previu que fosse». Stipetic é directo, mesmo se é para dizer que Herzog é ignorado na Alemanha. Exemplo prático: Encounters at the End of the World foi nomeado para um Óscar e apenas dois jornais alemães mencionaram o caso. Acresce que aquela ideia corporativista do Novo Cinema Alemão não encaixa na figura de Herzog (é até errado pensar-se numa vaga de cinema propriamente dito, vão debatendo Paganelli e Stipetic, trata-se antes de uma geração de realizadores que tinha de começar tudo de novo, logo após uma guerra mundial).

Mais do que um contador de estórias, Herzog é um «caçador de estórias», nas palavras de Grazia Paganelli. Tem olho, diríamos na nossa portugalidade. «É um romântico, embora deteste que o digamos», acrescenta Stipetic ao perfil, aproveitando para dar conta dos três novos projectos nos quais o realizador se encontra envolvido. Entre eles está um documentário — um documentário à Herzog, bem entendido — sobre línguas em extinção. Ou melhor, sobre os últimos falantes dessas línguas. Paganelli sorri: «Ele consegue ver a realidade de forma diferente.»

Fotos de Miguel Lopes

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Herzog é um homem de sonhos brancos

Directores IndieLisboa e Lucki Stipetic

Directores IndieLisboa e Lucki Stipetic

Se há quem conjecture que a realidade e a comédia são conceitos muito próximos, Encounters at the End of the World deu uma ajuda substancial para da suspeita fazer prova. As cerca de 800 pessoas, que se reuniram ontem à noite no Cinema São Jorge para assistir ao filme inaugural do IndieLisboa’09, riram muito expostas ao documentário de Werner Herzog, nomeado ao Óscares ainda este ano.

O cineasta alemão junta-se ao amigo Henry Kaiser precisamente no fim do mundo, onde caem todos os que não têm amarras, a Antárctida. Vai rendido às imagens subaquáticas — e dizer subaquáticas não é dizer tudo, é preciso acrescentar o tecto espesso de gelo sobre a água, as criaturas quase alienígenas, dir-se-ia —, mas o que primeiro encontra é uma paisagem industrializada… e degradada. Nada que um realizador que já fez fama da aventura não ultrapasse.

A vontade não era filmar pinguins. Era filmar sonhos, perceber o que leva bancários a preterir a gravata em favor do volante de um autocarro (foram este tipo de situações que levaram o público ao gozo satisfeito). Mas vamos pôr as coisas desta maneira: foi um pinguim a protagonizar o momento de resposta a Herzog, que tem as questões aparentemente mais absurdas. Afinal, os pinguins podem enlouquecer? A resposta é vermos um a caminhar para a morte certa e desejada, afastando-se de todos os outros (se o voltássemos a colocar junto dos demais, ele insistiria no plano).

Werner Herzog não esteve presente. Está com três filmes em mãos. Não teve tempo. Mas Lucki Stipetic, seu irmão e produtor de muitos dos seus silmes, esteve. E trouxe uma carta do duque do cinema alemão, onde este afirmava ter sonhado com Lisboa — ele que sonha uma a duas vezes por ano, confidenciou —, um sítio branco, nas suas palavras. E foi então que percebemos que o público iria identificar-se com Encounters at the End of the World. Assim foi.

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