No contexto da homenagem à secção do “Fórum” de Berlim, que celebra quatro décadas de ousada programação, o IndieLisboa organizou uma mesa-redonda com o Herói Independente, representado por Ulrich Gregor, fundador do “Fórum” e seu presidente durante os primeiros 30 anos, e Birgit Kohler, exibidora e também programadora da secção. O crítico de cinema Gabe Klinger, já um habitué do festival, moderou a conversa e começou por pedir a Ulrich Gregor que contasse a história de como surgiu este fórum de cinema: um espaço onde ver filmes só não chega, onde é importante falar e escrever sobre o que eles nos mostram, aprender com os que os vêem connosco, e assim rodeá-los o mais possível de vida para que sobrevivam para além do próprio festival.
Ulrich Gregor relembrou com nostalgia a altura em que, no rescaldo do movimento estudantil, o cinema era visto como uma arma que poderia mudar a sociedade. O Festival de Berlim foi sempre um oponente e a secção começou por ser pensada de uma forma bastante competitiva, também em relação a outros festivais. Com o tempo, contudo, esse estímulo energético deixou de ser suficiente. Quando Dieter Kosslick assumiu a gestão e direcção criativa do festival, a abordagem mudou definitivamente. “What belongs together, must be brought together”, foi a sua premissa. Pode-se dizer a respeito do “Fórum”, inserido de uma forma tão harmoniosa quanto possível tendo em conta a sua própria natureza, uma de contradição do sistema, que é uma parte importante da riqueza e diversidade do todo de que faz parte.
O primeiro contacto de Birgit Kohler com o “Fórum” foi como espectadora e, nessa altura, o teor político tinha contornos diferentes. Gabe Klinger menciona a estética radical de Michael Snow (So Is This) e Sharon Lockhart (Nô) – será ela uma nova forma de tratar a questão? Na opinião de Ulrich Gregor, ainda se fazem filmes políticos e é nas cinematografias que lutam contra estruturas autoritárias, como é o caso da China, que o cinema está mais vivo. Mas esclarece que a secção nunca mostrou filmes políticos só por serem políticos. Interessa que eles tenham uma estética convincente a sustentar esse conteúdo. Mas talvez o que tenha mudado seja o que se entende hoje por filme político, completou Birgit Kohler. A secção também tem um carinho especial por filmes com durações fora do comum. Entre um filme de 1 segundo e um de 16 horas, não existe diferença – nenhum filme é demasiado leve ou pesado, enquanto existir um público que sente falta de um outro tipo de cinema, que se rege por outra lista de prioridades.
Para Birgit Kohler a missão dos festivais tem mudado ao longo do tempo. Cada vez mais, estes transformam-se em mercados para a distribuição e a questão da sua sobrevivência leva-nos a questionar o que um festival de cinema pode e deve ser nos dias que correm. Com o cinema doméstico a ganhar terreno, há que adicionar qualquer coisa ao visionamento, nomeadamente através da documentação do estilo e conteúdo dos filmes. Os dois programadores falaram sobre a seriedade dos catálogos, que dedicam sem embargo 12 páginas ou mais a um artigo sobre um filme. Nas palavras de Ulrich Gregor: “Só posso mostrar um filme se o conseguir defender. Se não tiver nada a dizer sobre ele, não o posso mostrar”.
A secção, com o seu interesse por cinematografias completamente desconhecidas (a Mongólia e as Filipinas foram dois dos países destacados nas últimas edições), é descrita como estando “between the barricade and the Ivory Tower”, ou seja, entre a dura guerra da realidade e a transcendência dos conceitos, não sem uma tensão entre os dois. Fala a voz da experiência de anos de paixão e luta pelo cinema, quando Ulrich Gregor diz, a respeito dos filmes perfeitos, que não existem e, a existir, serão certamente aborrecidos.
