Na terça-feira, dia 27, as LisbonTalks abordaram os “Estados Gerais do Cinema Português”, num ambiente de relativa dissonância de opiniões. Depois de lida a carta da Ministra da Cultura, Gabriela Canavilhas, que não pôde estar presente mas fez questão de sublinhar a vontade política de chegar a soluções, a questão de partida debruçou-se sobre as medidas a ser tomadas para reforçar a internacionalização do cinema português.
A intervenção de Inês de Medeiros apontou para a necessidade da criação de um sistema capaz de garantir a regularidade da produção, com objectivos claros nos quais se possa depositar confiança durante o mínimo de tempo possível para avaliar a sua eficácia, num sector que “parece estar sempre dependente de um acaso, de uma ideia que surge”.
A proposta foi a de uma agência de divulgação e promoção do cinema em Portugal, dado o exemplo da Unifrance e da própria Agência da Curta Metragem, tema da conversa de ontem. Em Portugal, a gestão feita pelos produtores neste sentido não é suficiente e, relembrando iniciativas anteriores que pecaram pela falta de especificidade e de formação, uma agência capaz de gerir os apoios ao cinema e de estabelecer a ponte com os filmes estrangeiros que vêm para Portugal, até seria uma boa ideia.
Miguel Valverde, director do festival, sublinhou a importância do momento que se vive agora, depois do sucesso de João Salaviza em Cannes e tendo em conta a presença cada vez mais forte do cinema português em festivais estrangeiros (nomeadamente em Veneza e, no ano passado, em Roterdão). Parece urgente e, acima de tudo, possível que uma nova vaga de realizadores se manifeste e “não deixe cair o que se está a construir”. Talvez aquilo que esteja a faltar seja, numa análise mais simples, o exemplo: não nos referimos apenas a modelos, mas a provas concretas de que é possível fazer cinema em Portugal, para além da indústria ou da ausência dela.
Antes ainda de pensarmos em exportar, mencionou João Salaviza, há outros problemas de fundo que é preciso resolver, aquilo que apelidou como a “pequenez da cinematografia portuguesa”. Com alguma esperança ponderada na voz, resumiu a solução em poucas palavras: “Deixem-nos fazer os filmes que eles hão-de sair bem e hão-de ter pernas para andar”. Acrescentou ainda: “rejeito ser bandeira de uma geração que se aproxima”, com o efeito regenerador que daí pode resultar para os que olham em frente, para o que ainda há a fazer.
Pedro Costa entende também a questão da internacionalização como uma falsa questão, uma vez que a raíz já contém em si o principal constrangimento: “como é que se consolida o cinema português como cinema português?”, inquiriu. Se alguns concordam com a hipótese da política concertada e agregadora de uma agência e com a relevância de estratégias de visibilidade, como têm sido as Lisbon Screenings, para despertar a curiosidade de sales agents e produtores estrangeiros pelos filmes portugueses, o realizador considera a acção insuficiente. Antes ainda de pensarmos em como podemos estrear os filmes lá fora, para além dos festivais, há que não saltar etapas e pensar em “como podemos mostrar os filmes cá, primeiro”.
Ressente-se a questão que inaugura o debate. Foi pensada, clarificou Miguel Valverde, como base de consenso a partir da qual se poderia desenvolver a reflexão, abrindo para uma discussão que não se esgota em poucas horas, mas que se pretende que continue enquanto jornada de trabalho. Pedro Borges (Midas Filmes) não deixa contudo de argumentar a favor da divergência enquanto diversidade: “As pessoas gostam de cinema diferente e defendem-no. Não tem que haver consenso”. De resto, a representatividade do cinema português no estrangeiro, fora da discussão entre arte e indústria, tem que ver com a sua qualidade e diversidade.
Mas se há opiniões divergentes nestes pontos, quando se fala de fontes de financiamento o descontentamento é unânime: o dinheiro existe, mas é mal distribuído. Do lado da animação, Humberto Santana salienta a internacionalização como forma de viabilizar os orçamentos, através de parcerias. De resto, a responsabilidade é política, seja lá isso o que for. Fala-se de um estudo que deveria ter sido feito pelo Instituto do Cinema e do Audiovisual ou pelo Ministério, no sentido de averiguar as implicações de uma reformulação dos regulamentos que pudesse assegurar a regularização da produção e da distribuição, vertente particularmente negligenciada.
O modelo de funcionamento e financiamento está esgotado, assinala Luís Urbano (O Som e a Fúria), e ainda há a história do F.I.C.A. (Fundo de Investimento para o Cinema e Audiovisual) para repensar, a título de refundar as bases do cinema português. Há quem queira pedir à Ministra prazos para implementação dos regulamentos, a prática da intenção política, ou a aplicação de novos regulamentos dotados do “mínimo de estabilidade e conteúdo político”, que apostem nas primeiras obras, por exemplo. Inês de Medeiros referiu o prazo de vida curto dos ministros da Cultura: dois anos para desfazer o que o outro fez, sem que haja tempo para se chegar a resultados. Ainda que não mandatada pelo governo, a realizadora prontificou-se a representá-lo, dizendo que uma lei do cinema minimamente credível só poderá funcionar se todos dentro do sector forem capazes de estabelecer uma plataforma de entendimento e coerência.
Aproveitando a presença de Paula Moura Pinheiro, sub-directora da RTP2, Pedro Costa não pôde deixar de perguntar o porquê de os seus filmes passarem só depois da meia-noite. Assim se juntou a televisão à discussão: entre uma televisão privada sem caderno de encargos, algo que parece só acontecer em Portugal, e uma pública que se divide entre frentes sem que o cinema beneficie realmente disso, a solução passa por estabelecer quotas reais para o meio televisivo, mas, primeiro ainda, por redifinir o que é uma obra criativa.
Quando “o assunto é cinema português”, Pedro Borges admite que este está a viver uma guerra civil desde sempre, parafraseando o título do filme de Pedro Caldas, exibido no festival. O passado pesa e esse peso invoca de uma só vez o quão aquém a lei esteve e está de satisfazer as necessidades da produção de cinema que, relembrou Pedro Costa, também é cultura. Por outro lado, as limitações podem não ser mães, mas são certamente tias afastadas da invenção e de soluções criativas para além do convencional. Talvez ainda haja terreno fértil para plantar.
