Ben Rivers faz (mesmo) filmes.

À semelhança do que foi feito no ano passado com o foco ao trabalho dos Desperate Optimists, inserido na secção Cinema Emergente, o IndieLisboa’10 vai mostrar os filmes de Ben Rivers, realizador que já marcou presença em edições anteriores do festival.

Entre as salas de cinema e exposições, com o pé numa e outra arte, Rivers não se preocupa com rótulos ou legendas atribuíveis a um universo muito próprio e propriamente indivisível – o seu trabalho alimenta-se de ideias e são elas que ditam as regras. A duração de um filme é o espaço de que este precisa para respirar (esse mandamento é sagrado) mas note-se que Rivers faz questão de usar a sua câmara  Bolex antiga – que só permite planos de 30 segundos – na recolha de fragmentos que se entrelaçam de uma forma menos lógica que intuitiva, o que nos devolve, inesperadamente, a um terreno fértil onde não só a necessidade é a mãe da invenção, como as limitações técnicas podem despertar as solução mais imaginativas.

As experiências de Rivers neste campo remontam aos tempos em que estudou na Falmouth School of Art, em Inglaterra, no final da década de 90. O uso da película, da qual não abdica pela ambiguidade que propicia, por um lado, por não facilitar a identificação de uma referência imagética actual, e, por outro, por permitir um aspecto envelhecido, próprio de imagens de arquivo, que nos transporta para um outro diálogo com o tempo e o espaço, familiar e, ao mesmo tempo, estranho, é fruto de um trabalho quase artesanal. De facto, e como é título no seu site, Ben Rivers faz mesmo filmes, na própria cozinha, como se da mais simples colagem se tratasse. Faz questão de estar envolvido em todo o processo de produção do filme, desde o desenvolvimento da ideia à edição e, a respeito desta última, considera que nunca está fechada – de cada vez que vemos um filme, é como se o estivéssemos a reeditar, juntamos as peças de maneira diferente, e, nesse sentido, o cinema parece-se muito com a vida: um infinito de possibilidades.

Para Rivers e outros tantos, a curta metragem não se resume a um exercício para treinar corridas de longo curso. O formato coloca desafios auto-suficientes, como o seu cinema se pode descrever. Da mesma maneira, o uso da película e, em especial, do preto e branco, não constitui para ele uma afirmação no seio do debate entre o analógico e o digital. A seu ver, cada um deve usar o meio com o qual se sente mais confortável, e que dê resposta às ideias e à sua aplicação prática. Mas não hesita em admitir que a película envolve um elemento de risco que não está presente no vídeo, o que torna as coisas mais interessantes. O imprevisto ocupa sempre um lugar mais ou menos privilegiado quando se faz um filme, mas nas histórias que Rivers conta – ou, talvez seja mais adequado dizer, nos esboços de uma vida que não se deixa ler senão numa reinterpretação constante, nunca acabada, onde o tudo nunca é dito e a sociedade fica à margem de uma libertação que bebe da simplicidade – o mistério está sempre lá, como música de fundo, e vale para o espectador como para o realizador. A dúvida está dos dois lados.

O som também ocupa um lugar de relevo nos seus filmes. Na maioria da vezes, os sons captados pertencem a imagens diferentes, a outros filmes inclusive, e o verdadeiro entusiasmo surge nesse diálogo inesperado entre uma imagem e um som desconexos que, não raras vezes, encaixam na perfeição. Em This Is My Land (imagem acima), por exemplo, fazia sentido que os sons e a música referentes ao plano estivessem lá, mas mesmo nesse caso a gravação foi feita em separado, pelo que existe sempre uma construção.

Jake Williams, personagem principal do filme, vive sozinho na floresta de Aberdeenshire, na Escócia, e, no meio do nada, consegue manter um site, usando um gerador do tamanho de um camião ligado ao portátil. Familiar? O trabalho de Rivers, feito fora da indústria, não se esforça particularmente por resistir ao mundo moderno. Ainda que aterrador, o realizador admite ter por ele algum fascínio, mas principalmente pela convergência entre os dois, o mundo que nos rodeia no dia-a-dia e aquele que imaginamos e projectamos, num coexistência que não se faz sem alguma tensão. Rivers identifica-a também em alguns dos seus escritores preferidos: Calvino, Hoffman, Poe.

Origin of the Species

Nos filmes de Rivers há o comportamento humano e o que dele sobrevive nos lugares abandonados (a propósito disto, ver também Ruínas de Manuel Mozos) e não é por acaso que as suas personagens são sempre solitárias, auto-suficientes e um pouco excêntricas também. Existe, segundo o próprio, uma procura de satisfação face àquilo que Herzog apelidou como «ausência de imagens adequadas no mundo». O realizador alemão é um dos que cita como referência, entre Hans Richter, Walerian Boroczyk, Carl Dreyer, Man Ray e, no seu primeiro contacto com o cinema independente, George Kuchar e Margaret Tait.

Fala do expressionismo alemão e do Hammer Horror, a propósito dos filmes e movimentos que o influenciaram nos primeiros anos do percurso no cinema, que iniciou como programador na universidade e mais tarde, durante cerca de dez anos, na Cinemateca de Brighton. Stuart Gordon e o seu Re-Animator (1985) foram uma inspiração para Terror!, documentário que colecciona excertos de vários filmes de terror de culto, numa análise à morfologia do género – os dois vão passar no festival, o primeiro escolhido pelo próprio Rivers.

O IndieLisboa’10 vai passar ainda, entre outros: The Big Sink, primeiro filme do realizador, uma adaptação da história de Dr. Jekyll e Mr. Hyde de Robert Louis Stevenson, resultado de um projecto de escola feito com alguns colegas; Origin of the Species, mostrado na edição do ano passado; Old Dark House, marco no início do seu trabalho manual com os filmes; e I Know Where I’m Going, de 2009, onde se deixa perder para acompanhar a heroína da Powell & Pressburger numa viagem rumo a um destino que ela parece conhecer com (quase) toda a certeza.

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