
Em "O Amor Natural", o amor e o desejo são revividos pelos idosos, os amantes esquecidos, através da poesia
O trabalho de Heddy Honigmann tem sido homenageado um pouco por todo o mundo, com retrospectivas no Museu de Arte Moderna de Nova Iorque, no Walker Art Center de Minneapolis, no Arquivo de Filmes do Pacífico de São Francisco, na Cinemateca Arsenal de Berlim, no Museu de Cinema de Madrid, bem como em inúmeros festivais. Entre os muitos prémios recebidos incluem-se a Pomba de Prata (com El Olvido) e a de Ouro (com Metaal en Melancholie) no Festival de Documentários e Filmes de Animação de Leipzig, o Golden Gate Award no Festival de São Francisco, o Prémio do Júri no Festival Mundial de Cinema de Montreal, o Grande Prémio do festival Cinema du Réel em Paris e o Prémio do Público do IndieLisboa em 2007, com o documentário Forever.
Quando lhe perguntam onde e como desencanta as personagens e histórias que, mesmo nos momentos de silêncio, tanto dizem aos espectadores, Heddy admite não ter uma resposta. Não existe um segredo, pelo menos não um que se possa transformar em fórmula a aplicar sem distinção. Sublinha a importância da investigação, da relação que se estabelece com um lugar quando o visitamos mais do que uma vez, regresso esse que vai ao encontro do que se sucede ao espanto inicial: o florescimento de uma intimidade, sempre salvaguardada pela distância necessária ao observador.
Nascida em Lima, no Perú, em 1951, filha de sobreviventes do Holocausto – a mãe polaca e o pai austríaco –, Heddy filma El Olvido (2008), documentário sobre a capital e sobre a memória (ou esquecimento) dos seus habitantes, após décadas de crises económicas, violência e corrupção, enquanto cidadã holandesa que regressa a um país do qual esteve afastada, que mal conhece, mas que reconhece nessa estagnação que actualiza a memória – ou que torna assustador o vazio do esquecimento. Quando filma os holandeses, por oposição, fá-lo também como quem não pertence realmente ali, e essa estranheza funciona como contraponto de uma identificação que assim admite a ligação a um outro nível. A sua história pessoal determina uma multiculturalidade e uma mobilidade que a faz atravessar vários países, em busca de traços de uma humanidade que resiste e sobrevive, apesar das contrariedades, na Holanda, como na Índia ou em Paris.
A propósito da descoberta, diz Heddy que uma só vida não é suficiente para dar conta do recado. Sonhadora de histórias desde cedo, a sua paixão pela palavra escrita, em prosa e em verso, transparece nos filmes. O Amor Natural, ressuscita a poesia de Carlos Drummond de Andrade, cuja obra já conhecia desde os tempos em que estudava literatura no Perú. A imaginação começou desde cedo a pedir mais vida para as personagens que inventava, uma outra forma de expressão que Heddy encontrou no cinema, onde começou a gastar praticamente toda a sua mesada. Filmes como La Terra Trema de Visconti, La Passion De Jeanne D’Arc de Dreyer e Gold Rush de Charlie Chaplin, deram-lhe o vislumbre de um mundo que não cabia em Lima, onde não existia sequer uma escola de cinema. Apesar das dificuldades, decidiu deixar o país para ir estudar cinema em Roma. No início, conta, a presença da câmara constrangia-a e parecia roubar espontaneidade a algo que sempre lhe fora natural: conversar com as pessoas, com um interesse genuíno pelas suas vidas e, em particular, pelas suas memórias. Incorporado o dispositivo, o termo entrevista, tal como é entendido no contexto actual e mesmo à luz do documentário, não serve para categorizar a interacção de Heddy com as pessoas que filma. Além do documentário, a ficção também lhe interessa particularmente – veja-se Au Revoir e Mind Shadows - e considera mesmo que os dois géneros são irmãos, no que toca aos desafios que colocam ao realizador.
De resto, Heddy não filma conceitos, tão pouco ideias. Interessa-lhe filmar pessoas e não sujeitos/objectos, como esclarece numa conversa com o crítico John Anderson, no Festival Internacional de Cinema de São Francisco: «Quando alguém está à minha frente/em frente à câmara, eu tenho que amar essa pessoa para poder filmá-la.» À distância, de que diz ter necessidade, soma-se sempre uma grande curiosidade, pueril mas ponderada, capaz de emprestar poesia às situações mais desconcertantes, como a do táxi a cair aos bocados (e com um sistema anti-roubo duvidoso) em Metal e Melancolia (1994).
No Perú, e na América do Sul em geral, diz Heddy, as pessoas são muito criativas e usam a ironia e o humor para lidar com a tristeza e com os problemas do dia-a-dia. Seja como for, «acreditam sempre que a vida vale a pena e para elas», acrescenta, «vale mesmo». Mas a crítica social também está presente em Metal e Melancolia, como em El Olvido, no rosto dos mais novos, que se vêem obrigados a pedir nas ruas, nos intervalos do trânsito, às vezes com a vida por um fio e, mesmo empoleirados nesse fio, capazes de fazer um truque qualquer de magia. Heddy faz-nos pensar sobre estas questões, já depois do encantamento. Põe-nos a olhar para as peças, à primeira vista uniformes, do puzzle, para além do desenho que se constrói sobre o seu anonimato.
Mas os simbolismos só surgem posteriormente, na edição. Nessa altura as coisas ganham outra peso e medida. Quando se filma, vê-se pessoas, não se vê assuntos, nem símbolos. O que está em questão não é uma cirurgia ao real, uma estilização do tema, ainda que exista sempre «uma agenda, uma finalidade, no bolso de trás» quando se faz filmes, explica. Cá fora, onde a vida acontece para além do que prevemos, há momentos extraordinários e experiências nas quais nos vemos enredados para nossa própria surpresa, toda uma nova revelação não contida no guião para um documentário. Esse guião é apenas um esboço, não raras vezes pouco definido, um ponto de partida para a obtenção de financiamento. A tarefa nem sempre é fácil, mas, no caso de Heddy, a bagagem e a obra que traz consigo concendem-lhe o benefício da dúvida. Ainda assim, considera que por mais que se faça, nunca é suficiente.
Em 2007, Heddy recebeu o Golden Gate Persistence of Vision Award da Film Society de São Francisco, por 30 anos de cinema feito sem concessões, o que a realizadora considera ser uma boa definição de cinema independente, ou cinema de autor. Contudo, reduzido ao essencial, para ela o cinema nasce de uma necessidade, de uma vontade de contar histórias, de nos ouvirmos nas histórias dos outros. É isso que vemos nos filmes de Heddy - a nossa própria revelação, a vida em primeiro plano e tudo o resto, o acessório: distante, mudo. As pessoas que vemos nos filmes de Heddy Honigmann parecem estar sempre em grande plano, mesmo quando não estão. A proximidade e a força da sua presença fazem-nos experimentar uma sensação de comunidade, como se também nós estivéssemos sentados naquele passeio de El Olvido, onde a realizadora conversa com uma mãe e com as suas três filhas, e uma delas diz, envergonhada, que o seu sonho é ser uma ginasta olímpica; ou com Henry, o rapaz que engraxa sapatos na rua e diz não ter nem memórias, nem sonhos. Ele é a imagem do esquecimento, algo que para Heddy pode ser perigoso. Quando uma pessoa se esquece da sua história, corre sempre o risco de repeti-la. Existe algum conforto no esquecimento na medida em que se sublima também a dor, mas acabamos por nos furtar à tomada de consciência do que podemos efectivamente fazer para mudar as coisas.
Já por várias vezes consultei a programação do Indie Lisboa 2010 através de variados links que me levam até um pdf com a listas dos filmes. Estes estão divididos por diferentes tipologias mas em nenhuma parte está especificado o dia, a hora e sala em que determinado filme vai passar…
Ora isto é uma falha grave num documento que vocês apelidam de “programação”.
Será que estou a procurar no sitio errado? No documento errado?
Caro Yannick,
A razão pela qual só a conseguiu aceder ao documento pdf com o título dos filmes e as respectivas secções, prende-se com o facto de ainda não termos divulgado a grelha completa.
A grelha de programação (com os horários e salas detarlhadas) irá estar disponível no site oficial do IndieLisboa até dia 7 Abril.
Esperamos vê-lo no festival.
Cumprimentos,
IndieLisboa