Com novo fôlego, o 7º Festival Internacional de Cinema Independente de Lisboa traz-nos uma programação recheada de filmes novos e inéditos e, com eles, os filmes de sempre. Não estamos só a falar da secção Director’s Cut, que permite a obras conhecidas uma porta de saída alternativa da sala de montagem, dando a ver uma nova versão que sublinha a importância da edição na construção de um olhar. Fale-se antes de um compromisso entre a novidade e a tradição, essa relação difícil e fascinante que se estabelece entre o espaço, o tempo e tudo o que se perde (ou não) pelo meio, que permeia as grandes obras. É desses filmes, potencialmente intermináveis, que o IndieLisboa é feito e refeito.
A secção Herói Independente vem dar-nos a conhecer, sob uma nova luz , uma realizadora já interpelada na edição de 2007, com os filmes Forever e El Olvido – tendo o primeiro vencido o Prémio do Público nesse ano. A retrospectiva do trabalho de Heddy Honigmann, que virá a Portugal para apresentar as sessões e conduzir uma Masterclass, engloba, entre outros, os documentários Metal and Melancholy (1993), O Amor Natural (1996) e Good Husband, Dear Son (2001).
Ainda dentro da mesma secção, comemora-se os 40 anos do “Fórum” de Berlim, com a exibição de uma selecção de alguns dos filmes mais marcantes das últimas quatro décadas. A escolha coube, no seguimento de um convite feito pelos directores do festival, a catorze realizadores que têm vindo a testemunhar, inclusive nos próprios trabalhos, caminhos trilhados rumo a novas abordagens do cinema. NÔ, de Sharon Lockhart, Dust in the Wind, de Hou Hsiao Hsien e So Is This, de Michael Snow, são alguns dos filmes que representam este “mini-festival dentro de um festival”, tal como Nuno Sena o descreve.
O foco ao trabalho de Ben Rivers constitui igualmente um regresso, em tom de introdução, a um universo que já não é estranho ao IndieLisboa. De facto, o cinema auto-suficiente, próximo do deslumbre, de Rivers já várias vezes marcou presença no festival. Origin of the Species integrou a secção Cinema Emergente do ano passado e vai passar novamente este ano, ao lado de Ah, Liberty!, I Know Where I’m Going e This Is My Land, entre outros. A secção IndieMusic também tem a sua quota parte de recuo às origens. When You’re Strange, de Tom DiCillo, conta a história da banda The Doors desde o seu início; Leonard Cohen: Live at the Isle of Wight 1970, de Murray Lerner, transporta-nos para um concerto mítico; e a trilogia do cineasta Jorge António sobre o Kuduro aborda o impacto que este fenómeno musical e cultural teve na história do país. Destaque ainda para a série Music Box Club Docs, realizada por Paulo Prazeres, e para o documentário B Fachada – Tradição Oral Contemporânea de Tiago Pereira, actualizações criativas da conjuntura da música moderna portuguesa.
No que toca à produção nacional, a sua relevância na programação aponta para novas correntes que agitam o cinema português, para dar resposta a uma urgência que Miguel Valverde admite ter-se materializado positivamente com o sucesso da curta metragem Arena de João Salaviza. O cinema português prepondera como nunca antes na história do festival, com um total de 40 filmes inseridos na programação – 14 curtas metragens e 5 longas na Competição Nacional. Pela primeira vez em 7 anos, será um filme português a inaugurar o IndieLisboa: Fantasia Lusitana de João Canijo, uma incursão na memória colectiva do país no tempo da 2ª Guerra Mundial. A completar a lista de longas metragens estão Guerra Civil de Pedro Caldas, Traces of a Diary de Marco Martins e André Príncipe, Pelas Sombras de Catarina Mourão e Sem Companhia de João Trabulo.
Gabriel Abrantes, vencedor do Prémio Novo Talento FNAC do ano passado, com Visionary Iraq, assina, ao lado de Daniel Schmidt, History of Mutual Respect, curta metragem em competição nacional, inserida na secção Cinema Emergente. Os Olhos do Farol, de Pedro Serrazina, Carne, de Carlos Conceição e Synchrotron, de Patrick Mendes também se inserem nestas duas secções. Muito Além de Mário Gomes e Nenhum Nome, estreia de Gonçalo Waddington na realização, integram a Competição Nacional e Internacional de curtas metragens. O Estrangeiro, de Ivo M. Ferreira e Voodoo, de Sandro Aguilar, inserem-se na competição nacional e na secção Observatório. A programação completa pode ser consultada no site, bem como os prémios e júris responsáveis pela apreciação dos filmes deste ano. O prémio SIGNIS e o prémio RTP Pulsar do Mundo juntam-se à lista, e com eles um aumento do valor do prémio de distribuição que passará a ser de 10 mil euros, para apoiar a distribuição de uma longa metragem de competição internacional em sala. O valor total dos prémios é o dobro do registado no ano passado.
As Lisbon Screenings voltam a apostar na promoção do cinema português e as Lisbon Talks favorecem a discussão de ideias e problemáticas ligadas ao cinema, na teoria e na prática, com conversas diárias, seminários e masterclasses conduzidas por convidados portugueses e estrangeiros. Nas Sessões Especiais serão apresentados filmes que não se inserem em nenhuma das secções, em anteestreia: A Religiosa Portuguesa de Eugène Green, As Horas do Douro de Joana Pontes e António Barreto, Há Tourada na Aldeia de Pedro Sena Nunes, Como Desenhar um Círculo Perfeito de Marco Martins, A Cidade dos Mortos de Sérgio Tréfaut e Outrage & Rébellion, filme colectivo.
Para os mais pequenos, o IndieJúnior deste ano é, nas palavras de Possidónio Cachapa, o ano da animação. King of Thorn de Kazuyoshi Katayama, Summer Wars de Mamoru Hosoda e 9, de Shane Acker, produzido por Tim Burton, são algumas das longas metragens deste espaço de programação, sub-dividido nas secções Escolas e Famílias. Além dos Programas Combinados e Workshops práticos, a Sessão Especial do “Programa Escolhas” vem sedimentar os esforços desenvolvidos no sentido de complementar a educação dos mais novos com uma introdução à sétima arte num contexto de reflexão sobre temas importantes, com os quais se pode crescer de uma forma saudável e produtiva.
A palavra “fim” não faz parte do vocabulário do IndieLisboa’10. Depois das sessões de cinema e outras actividades que preenchem o festival durante o dia, o Indie by Night sugere noites memoráveis de espectáculo e convívio, nas salas do Maxime, Music Box, Lux Frágil e Santiago Alquimista. Assim se prepara o terreno para um dos eventos culturais mais importantes da cidade – também com extensões nacionais e internacionais que, depois do dia 2 de Maio, vão levar o IndieLisboa ao resto do país e arredores. Em Portugal, já estão confirmadas Alcobaça, Amarante, Odivelas, Porto, Vila Nova de Famalicão e, nos Açores, Ponta Delgada e Angra do Heróismo. No estrangeiro, o IndieLisboa Days - Portuguese Cinema on Tour vai invadir Provincetown (nos Estados Unidos, em Junho), Copenhaga (em Setembro) e Budapeste (em Novembro).
Imagem: Vengeance, de Johnie To (Observatório)
